Pular para o conteúdo principal

Postagens

VERSÃO DO PAI NOSSO (por Frei Betto)

  Versão do Pai-nosso Do livro FÉ e AFETO – Espiritualidade em tempos de crise Frei Betto Editora Vozes, 2019.   Pai-nosso que estais nos céus , e sois nossa Mãe na Terra, amorosa orgia trinitária, criador da aurora boreal e dos olhos enamorados que enternecem o coração, Senhor avesso ao moralismo desvirtuado e guia da trilha peregrina das formigas do meu jardim. Santificado seja o vosso nome gravado nos girassóis de imensos olhos de ouro, no enlaço do abraço e no sorriso cúmplice, nas partículas elementares e na candura da avó ao servir sopa.   Venha a nós o vosso Reino para saciar-nos a fome de beleza e semear partilha onde há acúmulo, alegria onde irrompeu a dor, gosto de festa onde campeia desolação. Seja feita a vossa vontade nas sendas desgovernadas de nossos passos, nos rios profundos de nossas intuições, no voo suave das garças e no beijo voraz dos amantes, na respiração ofegante dos aflitos e na fúria dos ventos subvertidos em furacões. Assim na terra como
Postagens recentes

A BARREIRA DO SOM (das palavras)

  Uma espiritualidade baseada na preocupação em pagar em dia a fatura do Visa (ou outra bandeira qualquer de sua preferência) Voos em velocidades supersônicas têm uma característica importante que é o estrondo provocado pela ultrapassagem da “barreira do som” (Isto se deve às ondas de choque que são formadas pela reflexão do meio gasoso sobre a superfície do objeto em voo) Revista Brasileira de Aplicações de Vácuo, v. 27, n. 1, 5-10, 2008. ************************************************************************** Acho que eu ultrapassei a barreira do som (das palavras) sem estrondo e sem estalo. [1] Palavras que me dizem com certeza pétrea que há um destino e ele é claro como neve. Essa certeza alimentada pela crença na vida depois da morte com sua geografia milimetricamente narrada de lugares, motivos, sentimentos com os quais as criaturas sobreviventes da morte estarão sujeitas, lá no dito mundo espiritual. Não me enquadro mais nesse tipo de crença, por tocarem nos limi

PAI NOSSO COMO FETICHE*

* Fetiche : Objeto que se cultua por supostamente possuir um valor mágico ou sobrenatural; objeto com características mágicas. Uma forma quase insana de utilizar o Pai Nosso é repeti-lo como uma fórmula com a qual tenta-se burlar as leis da Natureza. Um mantra de favorecimento privilegiado. Apesar de ter lá a sua utilidade como reforço psicológico, a contingência cega não está nem aí para demandas particulares, e quiçá coletivas. A insanidade não termina por aí, porque o crente acaba soltando expressões do tipo: “Se Deus quiser; e Ele há de querer.” Quer narcisismo mais exacerbado do que esse?! Há uma frase atribuída a Kierkegaard [1] : “A função da oração não é influenciar Deus, mas especialmente mudar a natureza daquele que ora”, ou seja, a melhor maneira de orar é refletir sobre si mesmo. Achar que a simples repetição de palavras – e às vezes com acrescentamentos esdrúxulos, pode tirar alguém de uma situação que segue sua sequência natural é uma presunção daquele que considera

PAUSA PARA OUVIR DEBUSSY

Claude Debussy 1862-1918 (crédito da imagem: Hadi Karimi)   https://www.youtube.com/watch?v=bYyK922PsUw

CATARSE NOSSA DE CADA DIA

  Catarse * nossa de cada dia * Catarse pode assumir o sentido de “purgação”, “purificação”, “libertação”. É termo utilizado na Medicina, na Arte, na Psicologia etc. Em Psicanálise, em linhas gerais, o termo significa o processo pelo qual a pessoa supera traumas e sentimentos negativos. ++++++++++++++++++++++++++++ Crônica se lê devagar, com calma. Não saia em velocidade. Crônica é deleite, lentidão, reflexão. Uma das intenções do cronista é dar alegria, prazer. Karnal, historiador, filósofo, professor, parece simples, mas resvala pela erudição sem ser aborrecido, impertinente e, mais que tudo, sem querer humilhar, “veja o tanto que sei”. (o destaque é meu).                                  Karnal, Leandro. A coragem da esperança. Planeta. Edição do Kindle. +++++++++++++++++++++++++++++ Congelei ao ler o prefácio, escrito por Ignácio de Loyola Brandão, do novo livro de crônicas do Karnal “A coragem da Esperança”. Brandão me fez revisitar algo que já tivera contato: o r

AMAR A DEUS E AO PRÓXIMO (é possível?)

  Mestre, qual é o grande mandamento na lei? E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.                                                                                                               Mateus 22:36-40 Com a proximidade do Natal, os cristãos e até não cristãos, tomados pela ambiência criada em torno do espírito de fraternidade universal, seja por diletantismo [1] ou pela força do marketing em torno desse momento do ano, têm arroubos [2] de ternura e de comiseração [3] , mesmo que durem alguns segundos antes do rega-bofe [4] . Daí meu ímpeto em escrever sobre o que acho dessa fala de Jesus sobre a chamada “lei e os profetas”. Todo mundo que já passou os olhos nos textos bíblicos sabe que o primeiro mandamento é referente

ESPIRITISMO NÃO É PARA AMADORES

  Definitivamente, o Espiritismo não é para amadores. Mas há, em algum lugar, uma forma mais palatável de entender o Espiritismo? Sim, há; basta frequentar um curso em centros espíritas tradicionais que ensinarão o Espiritismo cristão-evangélico onde apresentam as regras de como viver com o fim de alcançar a glória da salvação. Basta seguir aqueles cânones para alcançar o resultado desejado. É como uma certificação ISO de espiritualidade. Uma forma burocratizada de desenvolvimento espiritual. Mas há, também, um outro modo de ver o Espiritismo; um que não é muito saboroso - pelo menos inicialmente, e que exige muita dedicação e profundidade; um que vai mexer com todas as fibras do ser; um que vai fazer você pensar a vida de forma mais espontânea, menos programada; uma que vai exigir responsabilidade pessoal, coragem e trabalho; uma que irá te convidar a atravessar o deserto sem autopiedade, sem resignação – porque não permitirá fechar os olhos para a realidade; um que fará você tr